segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Moinhos ao vento

Criei o costume de afastar pessoas
que insistem em usar a expressão
"Ah, eu gosto de ficar sozinho!",
para justificar o ato de ignorar as outras.
Querem ficar a sós, mas não desejam que você as deixe.
Se gostas de ficar só, então seja só.
Porque eu as afasto de mim?
Simples, eu fui um menino e um adolescente solitário,
e não preciso mais de solidão ao meu redor.
Eu consigo ser só, no meio da multidão.
Cresci numa casa com cinco pessoas,
e passei a vida trancado no quarto assistindo televisão.
Enquanto minha casa vivia com uma enxurrada humana,
eu era só, eu vivia só, eu estive só.
Mas há quem diga que esse menino solitário já não existe mais,
só que estão enganados. Esse menino existe e é por causa dele
que tenho a solidão bem resolvida em mim.
Esse menino, agora, está grafado em minha pele,
reforçando a presença dele em mim: o meu menino, o meu pequeno solitário.
E ao olhar para ele, retratado em meu corpo, em minha existência,
lembro-me da nossa vida, nossa infância, nossa adolescência.
Lembro de nós dois!
Em meio a inúmeros moinhos, a paisagem me soa poética, identificável.
Tantos moinhos unidos, e cada um deles se faz solitário.
Todos juntos, unidos por um mesmo propósito,
e isolados na imensidão de areias desérticas.
Sou um moinho, vivendo minha existência ao redor de tantos outros.
O vento gira as hélices, o vento gira a minha vida e a leva pelo espaço e tempo,
pois meu corpo é fumaça que se esvai no ar.


Nenhum comentário: